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Testosterona feminina: o que a evidência diz sobre mitos, indicações e riscos reais

Dra. Tatiana Gontijo7 de junho de 2026
Testosterona feminina: o que a evidência diz sobre mitos, indicações e riscos reais

Mulheres produzem testosterona e dependem dela para libido, energia e massa muscular. Entenda onde a evidência é sólida, onde ainda é investigada e o que pedir na consulta.

Mulheres produzem testosterona nos ovários e nas glândulas adrenais, e ela tem papel documentado em libido, energia, massa muscular, densidade óssea e cognição. Segundo a revisão de Davis et al. (2019), publicada no consenso global sobre reposição de testosterona em mulheres, a única indicação com evidência robusta é a disfunção sexual hipoativa, mas o impacto do hormônio vai muito além da sexualidade. O problema é que a maioria das mulheres chega ao consultório sem saber que pode ter testosterona baixa, e parte das que sabem chegam com informações distorcidas sobre os riscos.

Mulher em treino de força, representando o papel da testosterona na massa muscular e energia feminina

O que a testosterona faz no corpo feminino?

A testosterona não é um hormônio exclusivo dos homens. Nas mulheres, ela é produzida principalmente nas células da teca ovariana e, em menor proporção, no córtex adrenal. Parte da testosterona também provém da conversão periférica de androstenediona. Os níveis femininos são aproximadamente dez vezes menores que os masculinos, mas a sensibilidade dos receptores andrógenos é similar.

Os efeitos documentados da testosterona em mulheres incluem:

Libido e função sexual: testosterona atua no cérebro, especialmente em regiões do sistema límbico envolvidas com motivação e desejo. O desejo espontâneo (não reativo) é particularmente dependente de androgênios. Quando os níveis caem, o que mais se perde é a iniciativa sexual, não necessariamente a capacidade de resposta.

Energia e disposição: receptores androgênicos estão presentes nas mitocôndrias musculares e no sistema nervoso central. Testosterona baixa está associada a fadiga, menor tolerância ao esforço físico e sensação de menor vitalidade em estudos prospectivos.

Massa muscular e metabolismo: testosterona estimula a síntese proteica e tem efeito anabólico no músculo esquelético. Esse papel é mais relevante após a menopausa, quando a queda combinada de estrogênio e testosterona acelera a sarcopenia. O músculo como órgão endócrino funciona em parte porque os hormônios que o constroem, incluindo a testosterona, também modulam seu papel metabólico sistêmico.

Densidade óssea: androgênios contribuem independentemente para a mineralização óssea. Estudos mostram que mulheres com deficiência androgênica têm maior perda óssea, e que a reposição de testosterona melhora densidade óssea em mulheres pós-menopáusicas com deficiência documentada.

Cognição: há associações em estudos observacionais entre níveis adequados de testosterona e melhor memória espacial, velocidade de processamento e fluência verbal em mulheres na transição menopausal. A relação causal ainda está sendo investigada.

Por que os anticoncepcionais combinados reduzem a testosterona livre?

Esse é um dos pontos mais clinicamente relevantes e menos discutidos nas consultas de contracepção.

As pílulas anticoncepcionais combinadas, que contêm estrogênio sintético (etinilestradiol) e progestina, estimulam o fígado a produzir mais SHBG (globulina ligadora de hormônios sexuais). A SHBG é uma proteína que se liga aos hormônios sexuais na corrente sanguínea, tornando-os biologicamente indisponíveis para os tecidos. Quando a SHBG sobe, a testosterona livre cai, mesmo que a testosterona total permaneça numericamente normal no exame.

O resultado prático é uma mulher com testosterona total de 35 ng/dL (dentro da referência do laboratório), SHBG de 180 nmol/L (alta pelo uso da pílula), e testosterona livre calculada muito abaixo do normal. O exame padrão diz "normal". O hormônio disponível para os tecidos está baixo.

Zimmerman et al. (2014) documentaram que o aumento de SHBG induzido por anticoncepcionais pode persistir por meses após a suspensão da pílula em uma parcela das usuárias. Algumas mulheres que param o anticoncepcional esperando que a libido melhore ficam frustradas porque a SHBG ainda está elevada meses depois.

Isso não significa que toda mulher deve parar o anticoncepcional. Significa que, em mulheres com queda de libido, fadiga ou outros sintomas enquanto usam pílula combinada, a avaliação de testosterona livre e SHBG é parte importante da investigação. A perda invisível de libido associada a anticoncepcionais tem esse componente hormonal como um dos mecanismos centrais.

Mulher em consulta médica, representando a avaliação hormonal e o diálogo sobre sintomas de deficiência androgênica

Onde a evidência de reposição é sólida e onde ainda é investigada?

Essa distinção é clinicamente essencial e frequentemente confundida tanto por quem promove como por quem rejeita o uso de testosterona em mulheres.

Indicação com evidência robusta: disfunção sexual hipoativa

O Transtorno do Desejo Sexual Hipoativo (TDSH) em mulheres pós-menopáusicas é a única indicação de reposição de testosterona com suporte de metanálises e consenso de sociedades especializadas. O consenso global de 2019, publicado no Journal of Clinical Endocrinology and Metabolism por Davis et al., revisou os dados de mais de oitenta estudos randomizados e concluiu que testosterona melhora o desejo sexual, a frequência de atividade sexual satisfatória e o bem-estar sexual em mulheres pós-menopáusicas com TDSH.

O benefício foi dose-dependente e se manteve em formulações que atingiram níveis fisiológicos, sem exceder os limites superiores da faixa feminina normal.

Indicações com evidência emergente ou ainda investigacional

Para fadiga, melhora de composição corporal em mulheres jovens, cognição e prevenção de sarcopenia pré-menopausa, os dados existem mas ainda não têm consistência suficiente para recomendações universais. Estudos são menores, com metodologia variada e populações heterogêneas. Isso não significa que o uso seja inapropriado, mas que a decisão deve ser individualizada com base em quadro clínico, não em protocolo uniforme.

Em mulheres em tratamento de câncer de mama que relatam disfunção sexual severa, o uso de testosterona é objeto de pesquisa ativa, com dados preliminares promissores, mas sem recomendação estabelecida por guidelines principais.

Mitos sobre masculinização: quando ocorre e quando não ocorre

O medo de virilização é o principal motivo pelo qual mulheres recusam ou médicos evitam prescrever testosterona quando há indicação. Parte desse medo é justificada e parte não é.

Quando a masculinização ocorre: crescimento de pelos, engrossamento da voz, acne significativa e clitoridomegalia são efeitos dose-dependentes e geralmente associados a doses suprafisiológicas, ou seja, doses que levam os níveis de testosterona além da faixa superior feminina normal. Isso ocorre com maior frequência em protocolos sem monitoramento laboratorial adequado ou em uso de preparações compounded sem padronização de dose.

Quando não ocorre: em reposição com doses fisiológicas que mantêm testosterona total e livre dentro da faixa feminina normal, com monitoramento a cada três a seis meses, o risco de virilização irreversível é baixo. Os estudos de longo prazo incluídos no consenso de 2019 não demonstraram virilização significativa com doses terapêuticas adequadas.

A clitoridomegalia permanente é rara e associada a doses altas e uso prolongado. É dose-dependente, não é uma consequência inevitável do tratamento dentro de parâmetros fisiológicos.

O monitoramento é a proteção. Não é a ausência do tratamento.

Libido baixa, fadiga, dificuldade de ganhar músculo ou perder gordura? Esses sintomas podem ter causa hormonal investigável. Uma avaliação especializada esclarece o que está acontecendo.

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Como avaliar: o que pedir na consulta

A avaliação adequada de androgênios em mulheres exige mais do que testosterona total. O painel mínimo relevante é:

Testosterona total: valor absoluto, mas precisa de contexto com SHBG para ser interpretado.

SHBG (globulina ligadora de hormônios sexuais): fundamental para interpretar a testosterona total. SHBG alta reduz a fração livre. SHBG baixa (comum em obesidade e resistência insulínica) aumenta a fração livre mas pode não compensar outros problemas.

Testosterona livre: calculada por fórmula validada a partir de testosterona total e SHBG, ou medida por diálise de equilíbrio (método mais preciso mas menos disponível). É o valor que melhor reflete a disponibilidade androgênica para os tecidos.

DHEA-S: produzido principalmente pelas adrenais, é precursor de androgênios. Declina com a idade e pode estar baixo em mulheres com fadiga adrenal ou estresse crônico prolongado.

Contexto clínico indispensável: ciclos menstruais, uso de anticoncepcionais (atuais ou recentes), queixas específicas de libido, energia, massa muscular, qualidade do sono e sintomas de hiperandrogenismo como acne e hirsutismo. Os exames não falam sozinhos.

A avaliação dentro do contexto maior da saúde ovariana e da longevidade hormonal é o que diferencia um tratamento individualizado de um protocolo genérico. O papel dos ovários como centro de comando da longevidade inclui a produção androgênica, que declina gradualmente a partir dos trinta e cinco anos, muito antes da menopausa.

Quando buscar avaliação especializada?

A avaliação por médico especializado em saúde da mulher ou endocrinologia é indicada quando:

  • Há queda de libido persistente não explicada por causas relacionais ou psicológicas
  • Fadiga significativa sem causa identificada em investigação básica
  • Dificuldade de manutenção de massa muscular desproporcional ao treino e à nutrição
  • Uso atual ou recente de anticoncepcional combinado com sintomas que se iniciaram com seu uso
  • Sintomas que se intensificaram após ooforectomia bilateral (remoção cirúrgica dos ovários)
  • Investigação de TDSH com ou sem relação com menopausa

A reposição de testosterona em mulheres não é uma intervenção simples nem universal. Mas também não é um tabu clínico. É uma ferramenta terapêutica com indicações precisas, contra-indicações relevantes (como câncer de mama hormônio-dependente ativo) e necessidade de monitoramento. A distância entre "proibida para mulheres" e "recomendada para todas" é onde mora o julgamento clínico.


Perguntas frequentes

Testosterona feminina baixa causa queda de libido? Sim, quando a queda é significativa. Testosterona tem papel documentado na libido feminina, especialmente no desejo espontâneo. A relação não é linear, e outros fatores como estresse, relacionamento, saúde mental e outros hormônios também afetam a libido. Mas quando a testosterona livre está muito baixa, a reposição tem evidência de benefício na disfunção sexual hipoativa.

Anticoncepcional hormonal afeta a testosterona? Sim. Pílulas combinadas de estrogênio e progestina aumentam a SHBG produzida pelo fígado, que se liga à testosterona circulante e reduz a fração livre disponível para os tecidos. Esse efeito pode persistir por meses após a suspensão do anticoncepcional em algumas mulheres.

Reposição de testosterona em mulheres causa virilização? Em doses fisiológicas e com monitoramento adequado, o risco de virilização é baixo. Crescimento de pelos, engrossamento da voz e clitoridomegalia são efeitos dose-dependentes e geralmente associados a doses suprafisiológicas ou uso prolongado sem monitoramento. Por isso a avaliação periódica dos níveis e dos efeitos clínicos é indispensável.

Quais exames avaliam testosterona feminina? A avaliação completa inclui testosterona total, testosterona livre (calculada ou por diálise de equilíbrio), SHBG e DHEA-S. Testosterona total isolada é insuficiente porque a fração biologicamente ativa é a livre. SHBG elevada pode resultar em testosterona total normal com testosterona livre baixa.

Testosterona melhora composição corporal em mulheres? A evidência é mais robusta para mulheres pós-menopáusicas. Estudos mostram que a reposição em doses fisiológicas contribui para manutenção de massa muscular e pode reduzir gordura visceral nesse grupo. Em mulheres mais jovens, os dados são menos consistentes e o uso para essa finalidade isolada ainda é investigacional.

Testosterona afeta cognição em mulheres? Há estudos associando níveis adequados de testosterona com melhor memória espacial, velocidade de processamento e função executiva em mulheres. O efeito é mais bem documentado em mulheres na transição menopausal. A relação é modulada por outros hormônios e por fatores genéticos, e ainda está sendo elucidada.


Fontes

  • Davis SR, et al. Global Consensus Position Statement on the Use of Testosterone Therapy for Women. Menopause. 2019;26(10):1071-1102.
  • Davis SR, et al. Testosterone for low libido in postmenopausal women not taking estrogen. Journal of Clinical Endocrinology and Metabolism. 2019.
  • Zimmerman Y, et al. The effect of combined oral contraception on testosterone levels in healthy women. Journal of Sexual Medicine. 2014;11(10):2526-2535.
  • Wierman ME, et al. Androgen therapy in women: a reappraisal. Journal of Clinical Endocrinology and Metabolism. 2014;99(10):3489-3510.
  • Islam RM, et al. Safety and efficacy of testosterone for women. The Lancet Diabetes and Endocrinology. 2019;7(10):754-766.
  • Shifren JL, Davis SR. Androgens in postmenopausal women. Menopause. 2017;24(8):970-984.

Este conteúdo é informativo e não substitui avaliação médica.


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Médica - CRM-DF 28722 - CRM-RJ 52-139851-4