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Sinais de infarto em mulheres: os 3 alertas que a medicina ignorou por décadas

Dra. Tatiana Gontijo8 de junho de 2026
Sinais de infarto em mulheres: os 3 alertas que a medicina ignorou por décadas

Infarto em mulheres raramente começa com dor no peito. Fadiga intensa, falta de ar e náusea são os sinais mais documentados. Saiba reconhecer antes que seja tarde.

Antes de infartar, o corpo de uma mulher geralmente dá sinais. O problema é que esses sinais raramente incluem a dor clássica no peito irradiando para o braço esquerdo. Segundo dados publicados no JAMA Internal Medicine, mulheres apresentam sintomas atípicos em até 42% dos infartos com supra de ST, e essa diferença de apresentação atrasa o diagnóstico e piora o prognóstico. Canto et al. (2012). Os três sinais mais documentados são fadiga intensa dias antes do evento, falta de ar desproporcional ao esforço, e náusea com dor irradiando para costas, mandíbula ou pescoço.

Ambiente clínico com equipamentos de monitoramento cardíaco representando cuidado cardiovascular feminino

Por que os sinais de infarto em mulheres são diferentes?

A explicação começa na anatomia. As artérias coronárias de mulheres são, em média, mais finas do que as masculinas. Isso influencia tanto como a doença aterosclerótica se desenvolve quanto como ela se manifesta. Enquanto em homens a obstrução tende a ser localizada em um ponto específico de uma artéria grande (lesão focal), em mulheres é mais comum a aterosclerose difusa e a doença microvascular coronariana, que compromete os vasos menores sem necessariamente criar uma placa obstrutiva visível na cineangiocoronariografia convencional.

Essa diferença anatômica tem implicação direta no diagnóstico. O cateterismo cardíaco pode mostrar "artérias limpas" em uma mulher que está infartando, porque o problema está nos microvasos ou no espasmo coronariano, não em uma placa calcificada obstruindo uma artéria epicárdica. Essa apresentação costumava ser descartada como "não cardíaca". Hoje sabemos que é um padrão real, mais prevalente em mulheres, com morbimortalidade significativa.

Além da anatomia, há diferença na percepção álgica. Mulheres tendem a ter limiares de dor diferentes e a processar a experiência dolorosa de formas distintas do padrão masculino, o que afeta como o sintoma é sentido e descrito. O resultado é uma apresentação clínica que não encaixa no template criado a partir de estudos feitos majoritariamente com homens.

Mulher demonstrando fadiga intensa e exaustão, um dos sinais precoces de infarto feminino

Quais são os 3 sinais mais documentados?

Fadiga intensa e inexplicável: Esse é o sinal que aparece com mais consistência nos estudos sobre apresentação feminina do infarto. Diferente da fadiga comum do dia a dia, é uma exaustão que não melhora com descanso, que surge sem causa aparente e que pode se instalar dias ou até semanas antes do evento agudo. Em um estudo publicado em Circulation, Mcsweeney et al. (2003) documentaram que 70,7% das mulheres que tiveram infarto relataram esse tipo de fadiga como sintoma prodrômico, frequentemente semanas antes do evento. Mcsweeney et al. (2003).

Falta de ar desproporcional: Dificuldade para respirar ao realizar atividades que normalmente não causam esforço, como subir uma escada, caminhar um quarteirão ou até falar. Pode aparecer em repouso. É frequentemente atribuída a ansiedade, descondicionamento físico ou causas pulmonares antes de se considerar origem cardíaca. Quando acompanha fadiga persistente, merece investigação cardíaca independentemente de outros sintomas.

Náusea, dor nas costas, mandíbula ou pescoço: A irradiação do desconforto cardíaco não segue o trajeto do braço esquerdo com a mesma frequência em mulheres. Pode se manifestar como pressão ou dor na mandíbula, pescoço, costas superiores, ou como mal-estar gástrico com náusea. Esses sintomas são facilmente atribuídos a enxaqueca, refluxo, tensão muscular ou estresse, atrasando o reconhecimento da emergência cardiovascular.

Vale notar: a dor no peito pode ocorrer. Quando ocorre, deve ser levada a sério da mesma forma. O ponto não é que mulheres nunca sentem dor no peito, é que a ausência dela não descarta infarto.

Médica conversando com paciente sobre saúde cardiovascular e prevenção

O viés de gênero na medicina cardiovascular

A pesquisa cardiovascular foi construída sobre populações predominantemente masculinas. O estudo Framingham Heart Study, iniciado em 1948 e que moldou boa parte do que sabemos sobre fatores de risco cardiovascular, incluiu mulheres apenas a partir de 1971 e por décadas as subrepresentou nas análises principais.

As consequências chegam até hoje. Os critérios diagnósticos, os valores de referência para exames e os protocolos de manejo foram calibrados para o organismo masculino. Quando uma mulher chega à emergência com náusea, fadiga e falta de ar, a hipótese de infarto concorre com diagnósticos mais "tipicamente femininos", como crise de ansiedade, síndrome do pânico ou dispepsia funcional.

Dados publicados no New England Journal of Medicine por Schulman et al. documentaram que, para a mesma apresentação clínica de dor torácica, mulheres eram encaminhadas para cateterismo cardíaco com significativamente menos frequência do que homens. Schulman et al. (1999). O resultado é diagnóstico tardio, intervenção tardia e, consequentemente, maior dano ao músculo cardíaco.

Esse não é um problema de má-fé individual. É um problema estrutural de como o conhecimento médico foi produzido e como esses padrões persistem nos protocolos de formação e atendimento.

A relação entre estresse crônico e saúde cardiovascular é outro ponto importante: o cortisol cronicamente elevado tem efeito direto sobre a inflamação vascular, um mecanismo central na doença coronariana em mulheres.

Mulher saudável praticando exercícios ao ar livre para proteção do coração

Fatores de risco específicos em mulheres

Além dos fatores de risco tradicionais (tabagismo, hipertensão, diabetes, sedentarismo, dislipidemia), mulheres têm fatores de risco exclusivos ou desproporcionalmente presentes:

Síndrome dos ovários policísticos (SOP): A SOP está associada a resistência insulínica, hiperandrogenismo e perfil lipídico desfavorável. Mulheres com SOP têm risco cardiovascular aumentado ao longo da vida, independentemente do peso. O papel da resistência insulínica nas oscilações metabólicas e de humor mostra como esse mecanismo tem ramificações além do sistema reprodutivo.

Pré-eclâmpsia e diabetes gestacional: Uma gravidez complicada por pré-eclâmpsia ou diabetes gestacional é um marcador de risco cardiovascular futuro. Mulheres que tiveram essas condições têm risco maior de desenvolver hipertensão, diabetes tipo 2 e doença cardiovascular nas décadas seguintes. Essa história precisa ser parte do prontuário e da avaliação de risco cardiovascular.

Menopausa precoce: Menopausa antes dos 40 anos, seja espontânea ou cirúrgica, remove a proteção estrogênica do sistema cardiovascular por um período mais longo. Está associada a maior risco de doença arterial coronariana e eventos cardíacos precoces.

Anticoncepcionais hormonais combinados: Em mulheres sem fatores de risco, o risco absoluto é baixo. Mas a combinação de anticoncepcional hormonal com tabagismo (especialmente acima de 35 anos), hipertensão não controlada, enxaqueca com aura ou trombofilia conhecida eleva significativamente o risco tromboembólico. A avaliação individualizada não é opcional nesses casos.

Inflamação crônica e autoimunidade: Doenças autoimunes como lúpus eritematoso sistêmico e artrite reumatoide estão associadas a risco cardiovascular aumentado, em parte pela inflamação sistêmica crônica que acompanha essas condições. Mulheres com diagnóstico autoimune precisam de monitoramento cardiovascular ativo.

O contexto mais amplo de por que mulheres adoecem mais ajuda a entender como esses fatores de risco se acumulam dentro de um sistema que historicamente subdiagnosticou a doença cardiovascular feminina.

O que fazer ao suspeitar de infarto

O tempo é músculo. Cada minuto de obstrução coronariana é músculo cardíaco perdido. A janela ideal de tratamento (intervenção percutânea dentro de 90 minutos do início dos sintomas) só é possível quando o diagnóstico é feito rapidamente.

Sintomas que exigem atendimento imediato de emergência:

  • Fadiga súbita e intensa sem causa aparente
  • Falta de ar em repouso ou com mínimo esforço
  • Dor, pressão ou desconforto no peito, costas, mandíbula, pescoço ou braços
  • Náusea intensa de início súbito
  • Sensação de que algo está errado, mesmo sem sintoma claramente localizável

Ao perceber esses sintomas: ligar para o SAMU (192) ou solicitar que alguém leve à emergência. Não dirigir. Não esperar para ver se passa. Se disponível e sem contraindicação conhecida, mastigar (não engolir inteiro) um comprimido de AAS 100mg enquanto aguarda o atendimento.

Um dado importante para contextualizar a urgência: a mortalidade por infarto agudo do miocárdio em mulheres é maior do que em homens, em parte pelo atraso diagnóstico. A sobrevida melhora substancialmente quando o atendimento é precoce.


Bloco de referência rápida: Sinais de infarto em mulheres incluem fadiga intensa (dias a semanas antes), falta de ar desproporcional ao esforço e náusea com dor na mandíbula, pescoço ou costas. A ausência de dor no peito não descarta o evento. Mulheres com SOP, histórico de pré-eclâmpsia, diabetes gestacional, menopausa precoce ou doenças autoimunes têm risco cardiovascular aumentado e merecem monitoramento ativo. Ao suspeitar de infarto: ligar para o SAMU imediatamente.


Seu risco cardiovascular precisa ser avaliado considerando os fatores específicos da saúde da mulher. Uma consulta muda o que você sabe sobre o próprio corpo.

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Perguntas frequentes

Quais são os sinais de infarto mais comuns em mulheres?

Os três sinais mais documentados em mulheres são: fadiga intensa e inexplicável nos dias ou semanas anteriores ao evento, falta de ar desproporcional ao esforço realizado, e náusea acompanhada de dor nas costas, mandíbula ou pescoço. A dor clássica no peito irradiando para o braço esquerdo é mais característica da apresentação masculina e ocorre com menor frequência em mulheres.

Por que o infarto em mulheres demora mais a ser diagnosticado?

Dois fatores principais contribuem: os sintomas femininos são menos reconhecidos como cardíacos (tanto pelas próprias mulheres quanto por profissionais de saúde) e existe um viés histórico na pesquisa médica cardiovascular, que por décadas estudou predominantemente populações masculinas. Estudos mostram que mulheres com dor torácica aguda aguardam mais tempo para avaliação em emergências e recebem com mais frequência diagnósticos de ansiedade ou distúrbio gastrointestinal quando o problema é cardíaco.

Anticoncepcionais aumentam o risco de infarto?

Anticoncepcionais combinados (estrogênio e progestina) aumentam o risco de eventos tromboembólicos em mulheres com fatores de risco específicos: tabagismo (especialmente acima de 35 anos), hipertensão arterial não controlada, enxaqueca com aura, histórico de trombose venosa profunda ou trombofilia conhecida. Em mulheres sem esses fatores de risco, o risco absoluto permanece baixo. A avaliação individualizada com médico é essencial antes de iniciar ou manter o uso.

SOP aumenta o risco cardiovascular?

Sim. A síndrome dos ovários policísticos está associada a maior prevalência de resistência insulínica, diabetes tipo 2, hipertensão e dislipidemia, que são fatores de risco cardiovascular estabelecidos. Mulheres com SOP têm risco aumentado de eventos cardiovasculares ao longo da vida, independentemente do peso corporal. O acompanhamento cardiometabólico é parte do manejo adequado da SOP, não apenas o controle dos sintomas ginecológicos.

O que fazer se suspeitar de infarto?

Ligar imediatamente para o SAMU (192) ou ir à emergência mais próxima. Não dirigir. Não esperar para ver se melhora. Se disponível e sem contraindicações conhecidas, mastigar um comprimido de AAS 100mg enquanto aguarda o atendimento. Os primeiros 90 minutos após o início dos sintomas são a janela mais crítica para o tratamento: quanto antes o fluxo coronariano for restaurado, menor o dano ao músculo cardíaco.

Menopausa precoce realmente aumenta o risco cardíaco?

Sim. A menopausa antes dos 40 anos (seja espontânea ou cirúrgica) está associada a maior risco de doença cardiovascular em comparação a mulheres que entram na menopausa na faixa etária esperada. O estrogênio tem efeito protetor sobre o endotélio vascular e o perfil lipídico. Sua queda precoce remove essa proteção por mais anos do que o esperado. A reposição hormonal, quando indicada e sem contraindicações, pode mitigar parte desse risco.


Este conteúdo é informativo e não substitui avaliação médica.


Fontes

  • Canto et al. (2012) — Sex Differences in the Initial Symptom Presentation of Acute Myocardial Infarction. JAMA Internal Medicine.
  • Mcsweeney et al. (2003) — Women's Early Warning Symptoms of Acute Myocardial Infarction. Circulation.
  • Schulman et al. (1999) — The Effect of Race and Sex on Physicians' Recommendations for Cardiac Catheterization. New England Journal of Medicine.
  • Mosca L, et al. (2011) — Effectiveness-Based Guidelines for the Prevention of Cardiovascular Disease in Women. Circulation. doi:10.1161/CIR.0b013e31820faaf8

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Médica - CRM-DF 28722 - CRM-RJ 52-139851-4