Dra. Tatiana GontijoSaúde Mental Integrativa
Blog/Saúde da Mulher

Infartos em mulheres jovens na academia: o que está aumentando e por que

Dra. Tatiana Gontijo8 de junho de 2026
Infartos em mulheres jovens na academia: o que está aumentando e por que

Eventos cardíacos em mulheres jovens durante exercício intenso estão crescendo. SCAD e síndrome de Takotsubo afetam desproporcionalmente mulheres. Entenda os mecanismos.

A epidemia silenciosa de eventos cardíacos em mulheres jovens durante exercício intenso está se tornando um problema de saúde pública. Um registro multicêntrico publicado no Journal of the American College of Cardiology mostrou que a dissecção espontânea de artéria coronária (SCAD) representa até 35% dos infartos em mulheres abaixo de 50 anos, com média de idade de 42 anos e 90% dos casos ocorrendo em mulheres. Saw et al. (2017). O exercício físico intenso está entre os principais gatilhos documentados.

Mulher em atividade física intensa representando o contexto de eventos cardíacos durante exercício

Por que eventos cardíacos em mulheres jovens estão aumentando durante o exercício?

A resposta não é simples, e começa por separar o que é real do que é sensacionalismo. Exercício físico regular protege o coração. Essa afirmação é sustentada por décadas de evidência sólida. O problema não é o exercício em si. É a combinação de exercício de alta intensidade com fatores de risco específicos em mulheres jovens que, na maior parte das vezes, não foram rastreados nem identificados.

Três mecanismos se destacam nos dados disponíveis.

O primeiro é a dissecção espontânea de artéria coronária, conhecida pela sigla SCAD (do inglês Spontaneous Coronary Artery Dissection). Diferente do infarto por aterosclerose, o infarto por SCAD não tem relação com placas gordurosas obstruindo artérias. O que acontece é uma separação das camadas da parede da artéria coronária, criando um hematoma intramural que comprime o lúmen e reduz ou interrompe o fluxo sanguíneo. O resultado é isquemia cardíaca aguda em uma artéria que, do ponto de vista externo, parece saudável.

Por razões que ainda estão sendo investigadas, essa condição afeta desproporcionalmente mulheres. O estrogênio e outros hormônios sexuais femininos parecem influenciar a estrutura e integridade da parede arterial de formas que a tornam mais suscetível à dissecção sob determinadas condições de estresse. Esforço físico intenso é um dos gatilhos mais documentados, especialmente levantamento de peso com carga alta e exercícios que exigem manobra de Valsalva (expiração forçada com glote fechada, como na prensa ou no agachamento com carga máxima).

O segundo mecanismo é a síndrome de Takotsubo, também chamada de cardiomiopatia de estresse. Nessa condição, um estresse físico ou emocional agudo desencadeia uma liberação maciça de catecolaminas (adrenalina e noradrenalina) que causa atordoamento do músculo cardíaco, com disfunção temporária do ventrículo esquerdo. Os sintomas imitam os de um infarto com elevação de ST. Cerca de 90% dos casos ocorrem em mulheres, com predominância após a menopausa, mas casos em mulheres mais jovens durante exercício intenso estão documentados.

O terceiro mecanismo é mais gradual: a tríade do sobretreinamento. A combinação de volume elevado de treinamento, baixa disponibilidade energética (déficit calórico crônico que não suporta o gasto) e disfunção menstrual associada cria um estado de estresse fisiológico com repercussões cardiovasculares documentadas, incluindo alterações no ritmo cardíaco e predisposição a arritmias.

Mulher realizando levantamento de peso intenso, atividade que exige monitoramento cardiovascular

O que diferencia o exercício que protege o coração do que o sobrecarrega?

A fisiologia do exercício ensina que o coração se adapta ao estímulo progressivo. O treinamento aeróbico regular, especialmente na faixa de intensidade moderada, produz remodelamento cardíaco favorável: aumento do volume do ventrículo esquerdo, melhora da função diastólica, queda da frequência cardíaca em repouso, redução da pressão arterial e melhora do perfil metabólico. Esse é o exercício que protege.

O problema começa quando a intensidade ou o volume supera a capacidade de adaptação e recuperação do organismo. Para mulheres, esse limiar é influenciado por fatores que não têm equivalente masculino.

O ciclo menstrual afeta o desempenho, a recuperação e o risco de lesão de formas diferentes em cada fase. Na fase folicular (primeiros dias do ciclo, até a ovulação), os níveis de estrogênio sobem progressivamente e a capacidade de recuperação tende a ser melhor. Na fase lútea (segunda metade do ciclo), a elevação de progesterona afeta a temperatura corporal basal, a qualidade do sono e a tolerância ao esforço intenso. Treinar com a mesma intensidade em todas as fases sem considerar essa variação é ignorar um dado fisiológico real.

A disponibilidade energética é outro ponto crítico. Mulheres que combinam treinamento intenso com restrição calórica (seja por dieta intencional, seja por não comer o suficiente para compensar o gasto) criam um estado que a medicina esportiva chama de síndrome da deficiência energética relativa no esporte (RED-S, anteriormente conhecida como tríade da atleta feminina). Esse estado afeta a função hormonal, a densidade óssea, a função imunológica e, relevante aqui, o ritmo cardíaco.

Movimento e humor explora como o exercício afeta a saúde mental e quais padrões de atividade física produzem benefícios consistentes sem sobrecarregar o sistema nervoso e cardiovascular. O papel do cortisol é central nessa equação: o sobretreinamento eleva cronicamente o cortisol, o que tem efeito direto sobre a inflamação vascular e o ritmo cardíaco.

Mulher em postura de recuperação após exercício, representando a importância do descanso e da escuta do próprio corpo

Médica realizando avaliação cardiológica em paciente antes de liberar para exercícios intensos

O perfil de risco que a academia não avalia

A maioria das academias não realiza triagem cardiovascular antes de matricular um aluno. O anamnese padrão, quando existe, pergunta sobre diagnósticos conhecidos e uso de medicamentos, mas raramente investigam fatores de risco silenciosos que são especialmente relevantes em mulheres jovens.

Displasia fibromuscular, uma doença das paredes arteriais que predispõe à SCAD, está presente em uma fração significativa das mulheres com diagnóstico de SCAD e frequentemente é assintomática antes do evento. Enxaqueca com aura, que já é um marcador de risco cerebrovascular e cardiovascular aumentado, é comum em mulheres jovens e raramente é considerada em avaliações pré-participação esportiva.

Histórico de pré-eclâmpsia ou diabetes gestacional, que são marcadores de risco cardiovascular futuro documentados, não aparecem nos formulários de triagem de academia. Disfunção menstrual, que pode indicar sobretreinamento ou baixa disponibilidade energética com repercussões cardiovasculares, é frequentemente normalizada como "minha menstruação sempre foi irregular".

O problema é que eventos cardíacos sérios em mulheres jovens são dramaticamente visíveis quando ocorrem, e dramaticamente evitáveis quando os fatores de risco são identificados com antecedência.

A ansiedade de performance também entra nessa equação de maneiras que merecem atenção: a pressão por resultado físico em tempos curtos leva mulheres a aumentar intensidade e frequência de treino sem respeitar os sinais de recuperação que o próprio corpo envia.

Sinais de alerta durante o treino que não devem ser ignorados

Qualquer um dos sinais abaixo durante o exercício é indicação de interrupção imediata da atividade e avaliação médica antes de retomar o treino:

Dor, pressão ou aperto no peito: Mesmo que leve, mesmo que se associe ao esforço e melhore com o descanso. A dor que aparece com esforço e melhora com repouso é o padrão clássico de angina. Não deve ser atribuída a tensão muscular sem investigação cardíaca.

Falta de ar desproporcional à intensidade: Dificuldade para respirar que vai além do esperado para o esforço sendo realizado. Especialmente quando acompanhada de tontura ou sensação de fraqueza.

Tontura, sensação de desmaio ou desmaio efetivo: Síncope durante exercício é uma emergência até prova em contrário. Pode indicar arritmia grave, disfunção valvar ou obstrução ao fluxo de saída ventricular.

Palpitações com sensação de coração irregular: A sensação de que o coração "falhou", "piscou" ou bateu de forma irregular durante o exercício. Especialmente se acompanhada de tontura ou mal-estar.

Queda abrupta e inexplicável de desempenho: Quando uma mulher que antes completava facilmente determinado treino começa a ter dificuldade crescente para o mesmo esforço, especialmente associada a fadiga persistente fora do treino, isso merece investigação.


Bloco de referência rápida: SCAD (dissecção espontânea de artéria coronária) causa até 35% dos infartos em mulheres abaixo de 50 anos e tem o exercício intenso como gatilho documentado. A síndrome de Takotsubo afeta 90% de mulheres e pode ser desencadeada por esforço físico agudo. Sobretreinamento com déficit calórico crônico (síndrome RED-S) gera alterações de ritmo cardíaco. Dor no peito durante esforço, tontura ou desmaio durante exercício são emergências até prova em contrário.


Avaliar o risco cardiovascular antes de intensificar o treino não é exagero. É a diferença entre adaptar o coração e sobrecarregá-lo.

QR Code para conversar pelo WhatsApp

Aponte a câmera para agendar pelo WhatsApp

Ou acesse: wa.me/556140429495

Perguntas frequentes

O exercício físico protege ou prejudica o coração?

Exercício regular de intensidade moderada é um dos fatores de proteção cardiovascular mais bem documentados pela ciência. O problema não é o exercício em si, mas o exercício intenso em excesso sem avaliação prévia, em especial em mulheres com fatores de risco não identificados como SCAD, doenças do tecido conjuntivo ou predisposição ao espasmo coronariano. A curva de benefício do exercício tem um ponto ótimo; abaixo dele falta estímulo, acima dele o estresse cardiovascular supera a capacidade de adaptação.

O que é SCAD e por que afeta mais mulheres?

SCAD é a sigla para Spontaneous Coronary Artery Dissection, ou dissecção espontânea de artéria coronária. É uma separação das camadas da parede arterial que reduz ou interrompe o fluxo sanguíneo coronariano, causando infarto ou arritmia grave. Cerca de 90% dos casos ocorrem em mulheres, com média de idade de 42 anos. Os mecanismos propostos incluem influência dos hormônios sexuais sobre a estrutura da parede arterial, predisposição em doenças do tecido conjuntivo como a displasia fibromuscular, e gatilhos físicos ou emocionais intensos.

O que é síndrome de Takotsubo?

A síndrome de Takotsubo, também chamada de cardiomiopatia de estresse ou síndrome do coração partido, é uma disfunção temporária do ventrículo esquerdo desencadeada por estresse físico ou emocional intenso. Os sintomas imitam os de um infarto. Cerca de 90% dos casos ocorrem em mulheres após a menopausa. O mecanismo central envolve uma liberação maciça de catecolaminas (adrenalina e noradrenalina) que causa espasmo e atordoamento do músculo cardíaco. Na maioria dos casos é reversível, mas pode ser grave na fase aguda.

Sobretreinamento causa problemas cardíacos?

Sobretreinamento combinado a déficit calórico crônico cria um estado de estresse fisiológico que pode afetar o ritmo cardíaco. A tríade da atleta feminina (baixa disponibilidade energética, disfunção menstrual e baixa densidade óssea) é reconhecida como síndrome com repercussões cardiovasculares, incluindo bradicardia, alterações do intervalo QT e predisposição a arritmias. Mulheres que treinam muito e comem pouco são o perfil de maior risco dentro desse contexto.

Quais sinais durante o treino nunca devem ser ignorados?

Dor, pressão ou aperto no peito durante o esforço; falta de ar desproporcional à intensidade do exercício; tontura, pré-síncope ou desmaio; palpitações com sensação de coração acelerado ou irregular; extrema fadiga com queda abrupta de desempenho. Qualquer um desses sintomas durante o exercício é indicação de interrupção imediata da atividade e avaliação médica antes de retomar o treino.

Quem deve fazer avaliação cardiológica antes de começar a treinar intenso?

Mulheres acima de 35 anos iniciando exercícios de alta intensidade; qualquer mulher com histórico familiar de morte súbita ou doença cardíaca precoce; mulheres com SOP, diabetes, hipertensão ou dislipidemia; mulheres que já apresentaram síncope, palpitações ou dor torácica durante esforço; e mulheres em sobretreinamento com irregularidade menstrual. A avaliação inclui eletrocardiograma em repouso, ergoespirometria em casos selecionados e ecocardiograma quando há suspeita específica.


Este conteúdo é informativo e não substitui avaliação médica.


Fontes

  • Saw et al. (2017) — Spontaneous Coronary Artery Dissection: Association With Predisposing Arteriopathies and Precipitating Stressors and Cardiovascular Outcomes. Journal of the American College of Cardiology.
  • Templin C, et al. (2015) — Clinical Features and Outcomes of Takotsubo (Stress) Cardiomyopathy. New England Journal of Medicine. doi:10.1056/NEJMoa1406761
  • Mountjoy M, et al. (2018) — IOC consensus statement on relative energy deficiency in sport (RED-S). British Journal of Sports Medicine. doi:10.1136/bjsports-2018-099193
  • Hayes SN, et al. (2018) — Spontaneous Coronary Artery Dissection: Current State of the Science. Circulation. doi:10.1161/CIRCULATIONAHA.117.030364

Próximas leituras

Bem-Viver

Movimento e humor: por que exercício muda o estado mental pela bioquímica, não pela disciplina

Exercício não trata depressão por força de vontade. Trata por bioquímica. BDNF, serotonina, dopamina, endorfinas. Entenda o mecanismo neurológico pelo qual o movimento afeta o humor e qual dose é suficiente para fazer diferença.

Ler artigo
Corpo & Mente

Cortisol e estresse crônico: o que acontece quando o alarme não desliga

O cortisol é o hormônio do estresse. Em doses certas, ele salva sua vida. Em excesso contínuo, ele deteriora o sono, a imunidade, o humor e o peso. Entenda o mecanismo do estresse crônico e por que o corpo feminino é especialmente vulnerável.

Ler artigo
Ver todos os artigos de Saúde da Mulher
Dra. Tatiana Gontijo

Dra. Tatiana Gontijo

Médica - CRM-DF 28722 - CRM-RJ 52-139851-4