Dra. Tatiana GontijoSaúde Mental Integrativa
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Maternidade e identidade: quem você é além de mãe

Dra. Tatiana Gontijo24 de maio de 2026
Maternidade e identidade: quem você é além de mãe

Maternidade não completa a mulher. Ela a redesenha. Entenda por que tantas mães perdem o senso de si mesmas, o que a psicologia chama de matrescence e como construir identidade própria sem abrir mão do amor pelos filhos.

Tem um momento que muitas mães reconhecem quando descrevem. É na frente do espelho, no banheiro, num segundo roubado entre uma demanda e outra. Ela se olha e não sabe bem quem está olhando de volta. Não no sentido de que está mais velha ou que o corpo mudou. Mas no sentido de que a pessoa que estava ali antes, com suas preferências, seus projetos, seus contornos de identidade, parece ter ficado difusa. Substituída, ou pelo menos apagada, pela mãe que ela se tornou.

A cultura tem uma resposta pronta para esse momento: é o amor maior. A mensagem implícita é que a diluição de si mesma é o sinal de que a maternidade funcionou. Que quanto mais você some, mais boa mãe você é. Que sentir falta de si é ingratidão.

Esse é um dos maiores ciladas silenciosas da narrativa sobre maternidade.

Maternidade não completa a mulher. Ela a redesenha. E o redesenho, quando acontece sem que a mulher seja incluída nele, produz não plenitude, mas vazio. Não entrega, mas desaparecimento. E desaparecimento crônico produz consequências para a saúde mental que são reais, mensuráveis e tratáveis, desde que alguém pare de chamar de ingratidão.

Uma reunião familiar celebrando momentos especiais, mostrando trajes tradicionais coloridos.

O que é matrescence

Em 1973, a antropóloga Dana Raphael cunhou o termo "matrescence" para descrever a transição para a maternidade como um processo de desenvolvimento humano, comparável à adolescência em intensidade e complexidade. Assim como a adolescência não é apenas um período de mudança física, mas uma ruptura de identidade real, com redefinição de si mesmo, renegociação de papéis e instabilidade que tem função no processo de crescimento, o mesmo acontece quando uma mulher se torna mãe.

O termo ficou esquecido por décadas. Foi a psiquiatra Alexandra Sacks que o recuperou e trouxe ao público geral, em 2017, num artigo no The New York Times que circulou amplamente entre mães que, pela primeira vez, tinham um nome para o que sentiam. Sacks descreveu matrescence como um estado de ambivalência: amor e esgotamento, alegria e luto pelo self anterior, presença total e saudade da própria vida anterior. Tudo ao mesmo tempo. Tudo simultaneamente verdadeiro.

A contribuição central do conceito é tirar esse estado do domínio do patológico individual ("tem alguma coisa errada comigo") e colocá-lo no domínio da transição humana normal ("estou passando por uma das maiores rupturas de identidade que existem"). Isso não elimina o sofrimento. Mas muda radicalmente a relação com ele.

O problema é que matrescence como conceito existe na teoria enquanto a cultura em volta da maternidade opera de forma completamente oposta: celebra a dissolução do self da mãe como evidência de amor, e nomeia a resistência a essa dissolução como egoísmo.

Por que tantas mães perdem o senso de si

A identidade não é um objeto que se perde. É uma estrutura que se constrói a partir de referências: o que você faz, o que sente prazer em fazer, como você é vista pelos outros, o que você escolhe quando ninguém está olhando, o que você pensa quando tem silêncio. São âncoras que compõem o senso de si mesma.

A maternidade, especialmente nos primeiros anos, remove ou transforma a maioria dessas âncoras de forma simultânea. O corpo mudou. O trabalho foi interrompido ou reorganizado. O sono passou a ser fragmentado por meses ou anos. O tempo que antes existia para escolhas pessoais passou a ser quase inteiramente ocupado por demandas de cuidado. As relações de amizade e parceria se reorganizaram em torno da criança. As preferências pessoais, quando existem espaço para exercê-las, frequentemente geram culpa que neutraliza o prazer.

O bebê passa a ocupar o centro total do campo de atenção, por necessidade real (bebês precisam de atenção total para sobreviver) e por construção cultural (mães que desviam o olhar são julgadas). O problema é que "centro total do campo de atenção" não é uma posição que pode ser ocupada indefinidamente sem custo para quem a ocupa.

Existe uma diferença fundamental entre identidade relacional e identidade própria. Identidade relacional é quem você é em relação a outros: mãe do João, filha da Maria, esposa do Pedro. É real e importa. Mas quando a identidade relacional passa a ser a única identidade disponível, quando não há mais âncoras que existam independentemente das relações de cuidado, o senso de self começa a se fragmentar.

Esse processo é gradual, quase imperceptível no dia a dia. Acontece uma pequena renúncia de cada vez: o hobby que ficou para depois, a amizade que foi esfriando, o projeto pessoal que foi empurrado, o momento para si que foi cedido. Isoladamente, cada um parece razoável. Acumulados ao longo de meses e anos, produzem o olhar no espelho que não reconhece quem está lá.

A culpa como mecanismo que aprisiona

A culpa materna não é um sentimento irracional que aparece do nada. É construída ativamente por uma cultura que define boa maternidade como apagamento de si. A lógica é circular e fechada: se você quer algo para si, você está priorizando você em vez do seu filho, o que significa que você não é uma boa mãe, o que significa que você deve se sentir culpada, o que significa que a solução é renunciar ao que queria para si.

Whinnicott descreveu a "mãe suficientemente boa" como aquela que não precisa ser perfeita, que pode cometer erros e repará-los, que tem existência própria além do papel materno. Mas a cultura popular absorveu uma versão distorcida da boa maternidade: a mãe que se apaga. A que nunca está cansada o suficiente para pedir ajuda, nunca está entediada o suficiente para precisar de tempo para si, nunca tem desejos que concorram com as necessidades dos filhos.

O mito da boa mãe que se apaga não é inofensivo. Ele funciona como um mecanismo de aprisionamento porque a culpa que gera é ativada exatamente no momento em que a mulher começaria a se recuperar. Quando ela finalmente vai sair com amigas, sente culpa. Quando começa um projeto pessoal, sente culpa. Quando pede ao parceiro que fique com os filhos para ela ter um tempo, sente culpa. A culpa aparece como guardiã do sacrifício, impedindo o movimento que seria libertador.

Querer algo para si não é ser egoísta. É ser uma pessoa. E pessoas que se apagam completamente não ficam melhores: ficam vazias. O vazio tem consequências, e elas raramente ficam fora da relação com os filhos.

O impacto na saúde mental

Mãe em momento quieto com bebê, luz suave, expressão de ternura e reflexão

A perda de identidade na maternidade não é apenas um desconforto existencial. Tem expressão clínica documentada.

Ansiedade difusa. Não a ansiedade focada em algo específico, mas uma tensão de fundo que não desliga, uma hipervigilância que se estende além do cuidado com os filhos e passa a permear toda a experiência. Quando a identidade está reduzida ao papel de cuidadora, qualquer ameaça a esse papel, real ou percebida, ativa o sistema de alarme. O resultado é um estado crônico de prontidão que esgota o sistema nervoso. A ansiedade que muitas mães sentem no puerpério e além tem nessa perda de referências de si mesma uma de suas raízes menos nomeadas.

Vazio existencial. Distinto da tristeza, o vazio existencial é uma sensação de ausência de sentido que não é nomeada facilmente. A mulher pode estar fazendo tudo certo, os filhos estão bem, o lar funciona. E ainda assim há um buraco onde antes havia algo. Frequentemente ela não sabe o que está faltando porque perdeu acesso às referências que definiam o que era satisfatório para ela.

Ressentimento não nomeado. O ressentimento que se acumula quando há renúncia crônica sem reconhecimento e sem reciprocidade. Não é necessariamente ressentimento em relação aos filhos: muitas vezes é em relação ao parceiro que não carrega a mesma carga, ao sistema que não oferece suporte, à cultura que normalizou o sacrifício. Mas como o ressentimento não tem espaço legítimo na narrativa da boa mãe, ele não é nomeado. Fica circulando como irritabilidade generalizada, distância emocional, sensação de injustiça que a própria mulher trata como irracional.

Depressão que não se parece com tristeza. Perda de prazer em quase tudo, funcionamento no piloto automático, sensação de estar presente fisicamente mas ausente internamente. Não necessariamente choro e tristeza visível, mas um estado de apagamento que a mulher frequentemente não identifica como depressão porque "está dando conta." Sinais de depressão que não parecem depressão descreve esses padrões com precisão.

A sobrecarga invisível que muitas mulheres carregam na maternidade, o trabalho não nomeado de coordenar, antecipar, lembrar, gerenciar, além do cuidado direto, é o substrato no qual esses sintomas se desenvolvem. Não é fragilidade individual. É o produto previsível de uma estrutura que deposita carga desproporcional sobre um único ponto.

Um bebê adorável em roupas vermelhas segurando a mão de um dos pais com design de henna.

Como construir identidade própria sem culpa

Reconstruir ou manter identidade própria dentro da maternidade não exige grandes gestos. Exige permissão. E permissão é o passo mais difícil porque vai de encontro ao que a cultura pede.

Nomear o que está acontecendo. Reconhecer que a sensação de "ter sumido" não é fraqueza nem ingratidão, mas o resultado de um processo real de erosão de identidade. Ter um nome para isso, seja matrescence, seja perda de identidade, seja simplesmente "eu deixei de existir para mim mesma", já muda a relação com o fenômeno. Não é uma falha de caráter. É uma consequência documentada de como a maternidade é estruturada culturalmente.

Pequenas práticas de presença para si mesma. Não as grandes listas de autocuidado que circulam nas redes, que frequentemente geram mais culpa quando não executadas. Pequenas âncoras cotidianas: um tempo, mesmo que curto, que pertença à mulher e não ao papel de mãe. Pode ser uma caminhada sozinha, a retomada de uma leitura, um contato com uma amizade que ficou distante. O tamanho importa menos do que a regularidade e do que a qualidade de presença: fazer algo como mulher, não como mãe.

Psicoterapia. O espaço terapêutico tem uma função específica nesse contexto: é um lugar onde a mulher existe como sujeito, não como mãe. Um lugar onde seus pensamentos, seus conflitos, seus desejos e suas perdas importam sem precisar serem filtrados pela pergunta "mas isso é bom para meu filho?" A terapia não resolve a estrutura externa que produz a sobrecarga. Mas oferece um espaço de reconhecimento e de reconstrução de narrativa que tem efeito real sobre o bem-estar.

Permissão explícita. Às vezes o que falta é alguém que diga: você pode querer coisas para si mesma. Você pode não querer estar sempre disponível. Você pode estar exausta e pedir ajuda. Você pode ser uma pessoa além de ser mãe. Se esse alguém não existe no entorno, encontrá-lo num grupo, numa terapeuta, numa comunidade de mulheres que nomeiam o mesmo processo, é um passo concreto.

Revisão da divisão de carga. Identidade própria não se constrói no vácuo de esgotamento total. Quando a divisão de responsabilidades é radicalmente desigual, não há espaço físico, emocional ou temporal para a mulher existir além do papel de cuidadora. A conversa sobre divisão de carga com o parceiro, quando existe parceiro, é parte do processo. Não é queixa. É condição estrutural para que algo mude.

Sentir que você sumiu dentro da maternidade não é ingratidão. É um sinal que merece atenção e espaço.

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O que muda nos filhos quando a mãe se encontra

Há uma lógica contraintuitiva que muitas mães resistem em aceitar: filhos de mães que se encontraram, que têm identidade própria além do papel materno, que permitem para si mesmas existir como pessoas, se desenvolvem melhor do que filhos de mães que se apagaram completamente.

O mecanismo não é misterioso. Uma mãe que está presente para si mesma está emocionalmente disponível de forma diferente. A disponibilidade não é apenas quantidade de tempo: é qualidade de presença. Uma mãe esgotada, vazia, resentida e funcionando no piloto automático pode estar fisicamente presente 24 horas por dia e emocionalmente ausente. Uma mãe que tem existência própria, que tem momentos que pertencem a ela, que consegue se recuperar, pode estar fisicamente presente menos tempo e oferecer uma presença muito mais rica.

Winnicott descreveu que o que o bebê precisa não é de uma mãe perfeita, mas de uma mãe suficientemente boa. Suficientemente boa inclui ser uma pessoa real, com limitações reais, que comete erros e os repara. Uma mãe que existe além do papel não ensina ao filho que ela não importa. Ensina que cada pessoa tem existência e necessidades próprias. Isso é um aprendizado sobre relacionamentos que vai durar a vida toda.

A mãe oca de si mesma não é proteção para o filho. É um modelo de apagamento que ele internalizará, especialmente se for menina: a mensagem de que amor verdadeiro significa desaparecer.

Quem sou eu fora dos papéis que desempenho explora essa questão de identidade além dos papéis sociais com mais profundidade. A maternidade é um papel central e real. Mas não pode ser o único.


Perguntas frequentes

É normal sentir que perdi minha identidade depois de ser mãe? É muito comum. E tem um nome: matrescence. A transição para a maternidade é uma das maiores rupturas de identidade que existem na vida adulta. Sentir que você ficou difusa, que não sabe bem quem é além de mãe, que perdeu acesso ao que te satisfazia antes, não é sinal de que há algo errado com você. É o resultado documentado de um processo de reorganização de identidade que acontece sem suporte adequado na maioria das culturas ocidentais contemporâneas.

Querer tempo para mim me faz uma mãe egoísta? Não. Faz de você uma pessoa. Egoísmo seria priorizar seus desejos sem considerar as necessidades reais dos filhos. Querer tempo para si dentro de uma estrutura de cuidado que garante o bem-estar deles não é isso. É a condição básica para que você continue tendo algo a oferecer. Mãe que se apaga completamente não fica melhor: fica vazia. E vazio tem consequências para todos ao redor.

Minha filha vai aprender a se apagar também se me vir me apagando? Esse é um mecanismo real e documentado. Crianças aprendem sobre relacionamentos observando como os cuidadores se relacionam consigo mesmos e entre si. Uma mãe que se apaga transmite, ainda que sem palavras, que isso é o que se faz quando se ama alguém. Cuidar da sua própria identidade não é egoísmo: é também um ato de cuidado com a formação da sua filha.

O que fazer quando o parceiro não entende que eu preciso de tempo para mim? Essa é uma conversa sobre divisão de carga e sobre o que cada um entende por parentalidade compartilhada. Muitas vezes o parceiro não entende porque não percebe a assimetria, não porque a nega conscientemente. Nomear com clareza o que você precisa e o que está acontecendo com você é o primeiro passo. Quando a conversa não avança sozinha, terapia de casal pode oferecer um espaço mais seguro para que ela aconteça.

Quando a sensação de ter "sumido" precisa de atenção profissional? Quando acompanha sintomas persistentes: tristeza que não passa, ansiedade que não desliga, ausência de prazer em quase tudo, funcionamento no piloto automático por semanas ou meses, sensação de que não vai melhorar. Esses não são apenas os efeitos normais de matrescence. São sinais de que o processo excedeu a capacidade de adaptação do sistema nervoso e que cuidado especializado pode fazer diferença real.

Terapia ajuda nesse processo? Sim, de formas específicas. A terapia oferece um espaço onde a mulher existe como sujeito, não como mãe. Um espaço onde seus próprios conflitos, perdas, desejos e questionamentos têm lugar sem precisarem ser filtrados pela pergunta "mas isso é bom para meu filho?" Além disso, a terapia oferece suporte para a culpa que aparece toda vez que a mulher tenta se recuperar, e para a redefinição de identidade que matrescence exige. Não resolve a estrutura externa, mas muda a relação interna com ela.


Este conteúdo é informativo e não substitui avaliação médica. Se você reconhece esses padrões na sua vida, busque um profissional de saúde.


Fontes

  • Sacks A. The Birth of a Mother. The New York Times. 8 mai. 2017.
  • Raphael D. The Tender Gift: Breastfeeding. Nova York: Schocken Books, 1976.
  • Winnicott DW. The Child, the Family, and the Outside World. Londres: Penguin Books, 1964.
  • Feldman R. Sensitive periods in human social development: new insights from research on oxytocin, synchrony, and high-risk parenting. Development and Psychopathology. 2015;27(2):369-395. doi:10.1017/S0954579415000048
  • Bartholomew MK et al. New parent adjustment and attitudinal change after the transition to parenthood: implications for postnatal depression. Psychological Medicine. 2015;45(3):555-566. doi:10.1017/S0033291714001731

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Dra. Tatiana Gontijo

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Médica - CRM-DF 28722 - CRM-RJ 52-139851-4